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Publicação em O Estado de S. Paulo
(Caderno "Metrópole", Seção "Tesouro Paulistano")
São Paulo, 23 de outubro de 2004, p.
C7.
O Brecheret que está nas ruas
* José de Souza Martins
Meu primeiro encontro com
Brecheret ocorreu em 1950 e seria a coisa mais estranha se eu fosse adulto.
Mas eu era criança e tinha, portanto, a liberdade de ficar na ponta dos pés
para olhar por um pequeno buraco do tapume batido pelo tempo e ver o que
havia do outro lado. Várias vezes eu tentara encontrar um jeito de espiar lá
dentro. A praça Princesa Isabel era linda, mas aquele tapume feio destoava
das árvores antigas, plátanos, creio. Eu vinha do subúrbio duas vezes por
semana para as aulas de inglês e datilografia na escola de uma senhora alemã
que vivia num palacete antigo na esquina da praça com a rua Guaianases.
Finalmente consegui ver algo, era de bronze, parecia o peito de um cavalo.
Ou a anca? Só fui ver o monumento inteiro quinze anos depois, já estudante
na USP, quando passei casualmente por lá. Era mesmo um cavalo e nele montado
o Duque de Caxias. Mas o cavalo era imponente, muito mais ducal do que o
duque.
Só mais tarde fiquei sabendo
que duas esculturas de mulheres nuas que vira ocasionalmente, desde pequeno,
na Galeria Prestes Maia, também eram de Brecheret. Foram as primeiras
mulheres que vi nuas, metálicas, num belo colorido de bronze, quebrando a
correria e a rotina dos pedestres da cidade. Vistas pelo canto do olho dos
apressados, diziam aos desumanizados pela pressa que gente é gente.
Um dia, atravessando pela
calçada errada o largo do Arouche, vi fascinado, no meio das plantas,
"Depois do Banho", mulher nua, de bronze, repousando sob fingido sol na São
Paulo ainda fria e garoenta.
O "Monumento às Bandeiras" eu
conheci através dos postais que o difundiram pelas papelarias e bancas de
jornais na época do quarto centenário da cidade. Achei-o feio, visto desse
modo. Esquisito mesmo. Só uns quinze anos depois, quando fui morar no
Planalto Paulista, pude vê-lo diretamente, de vários ângulos, de perto, em
diferentes dias e noites em que por lá passei. Pude entender os versos de
Paulo Bonfim: "Mestre-de-Campo Victor Brecheret comanda seus mamelucos de
granito." Bem mais tarde associei o monumento à descrição da expedição de
Teotônio José Juzarte ao Mato Grosso, no século 18. Com certeza os cavalos
estão de mais, são excessivos, num tempo em que cavalos não eram usados
nessas viagens de conquista. Mas é compreensível que estejam ali na
celebração do épico, animais épicos que são. Como aqueles cavalos em relevo,
do mesmo Brecheret, na fechada do Jóquei Clube, que passei a ver desde
quando a USP se mudou para a Cidade Universitária e o roteiro de minha ida
ao trabalho também mudou.
No meio tempo, desenvolvi a
mania de levar meus alunos aos cemitérios, para estimulá-los a "lerem" a
cidade em que vivem. Os mortos tem muito a dizer. Fui descobrindo outros
Brecherets: no da Consolação, a comovente alegoria da dor e da separação no
túmulo de dona Olívia Guedes Penteado, mecenas das artes. No Araçá, o
triunfo alado da poesia no túmulo da poetisa Francisca Júlia da Silva,
escultura que o senador Freitas Vale, também mecenas, mandara erguer. Foi a
obra que garantiu a Brecheret a bolsa de longos anos de estudo em Paris.
Uma última descoberta foi
quando me mudei para a Vila São Francisco, na divisa de Osasco, literalmente
fundos da USP, no início dos anos setenta. Numa caminhada de reconhecimento
pelas ruas do bairro, enveredei pela rua Martin Luther King, uma rua de
terra. Em frente ao Clube de Golfe São Francisco, um casarão no fundo de um
gramado, que tinha no meio uma escultura de bronze. Não conseguia distinguir
bem a figura pelo portão apenas ligeiramente aberto. Mas já podia dizer que
podia ser um Brecheret. Só há pouco tempo fiquei sabendo que era: "Vendedora
de Flores".
Brecheret foi o maior
jardineiro de São Paulo: semeou esculturas por toda parte.
* Professor aposentado de Sociologia
na USP.
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